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Exposição reúne mobiliário moderno brasileiro e esculturas de Célia Cymbalista

A Galeria Teo apresenta Encontros Insólitos, exposição que coloca em diálogo o mobiliário moderno brasileiro e a arte escultórica de Célia Cymbalista

 

Dedicada ao design moderno brasileiro, a Galeria Teo constrói, ao longo de quase duas décadas, uma atuação pautada por pesquisa, curadoria e restauro especializado. Em Encontros Insólitos, esse repertório histórico é ativado por uma articulação curatorial que amplia sua leitura e desloca seus limites. A mostra se estrutura em dois momentos complementares e independentes, com uma apresentação ampliada na sede da Galeria Teo, entre 26 de março e 30 de junho de 2026, e desdobramento na SP-Arte 2026, de 08 a 12 de abril, no Setor Design.

Da fricção entre a cultura material modernista e a pesquisa escultórica de Cymbalista emerge uma investigação sobre fronteiras entre obra e uso, singularidade e repetição, rigor e gesto. No modernismo, forma e função constroem um pacto de equilíbrio. Na produção de Cymbalista, equilíbrio é sempre um estado instável. Ao aproximá-los, a exposição desloca o olhar. O mobiliário deixa de ser apenas objeto de uso e se afirma como gesto cultural, enquanto a escultura deixa de ser apenas presença simbólica e se revela como construção material. Cada linguagem ilumina a outra.

 

Encontros Insólitos Célia Cymbalista na Galeria Teo São Paulo Foto André Klotz Easy Resize com
Encontros Insólitos – Célia Cymbalista na Galeria Teo, São Paulo, 2026 | Foto André Klotz

 

A curadoria e a expografia são assinadas por Teo Vilela Gomes e Claudio Novaes. No núcleo artístico dedicado à artista, a historiadora da arte e gestora cultural Lorette Coen atua como co-curadora, conferindo densidade crítica e articulação conceitual à leitura das obras.

As duas apresentações partilham o mesmo eixo conceitual e assumem configurações próprias. Na galeria, o diálogo se desenvolve em percurso mais amplo e imersivo, enquanto na SP-Arte se apresenta de forma mais concentrada e precisa.

 

ENSAIO CURATORIAL | LORETTE COEN

Encontros insólitos

Célia Cymbalista na Galeria Teo

O encontro entre Célia Cymbalista e Teo Vilela foi fortuito. Uma surpresa para ambos.

Ela, figura da cerâmica como arte; ele, alma da Galeria Teo dedicada ao melhor do design moderno brasileiro. Se conheceram e de imediato estabeleceu-se um diálogo. O desejo de mostrar o trabalho de Célia no espaço da galeria e na SP-Arte se revelou e amadureceu com o apoio e a cumplicidade de toda a equipe que, de maneira proficiente, faz as exposições surgirem no mundo. Assim criou-se outro fértil encontro: aquele do belo mobiliário nacional das décadas de 1930 a 1970 com as obras pujantes de Célia.

Percebendo a riqueza contida na proposta, a Galeria Teo suscita um diálogo — ou talvez um confronto. Ou ambos, no intuito de estimular perguntas e reflexões e, mais diretamente, de refrescar o olhar.

Escolhendo a cerâmica como modo de expressão, Célia Cymbalista sempre situou seu trabalho na estreita divisa entre obra de arte e peça utilitária, transpondo sistematicamente essa fronteira convencional. Não busca a perfeição. Às vezes, suas peças apresentam textura rugosa, granulada. Captam sombras e luzes, ressoam ecos e reminiscências, aludem discretamente a culturas outras, alcançam equilíbrios além do formal. E não param por aí: expressam, afirmam, sorriem, interrogam, lembram. Demonstram total indiferença ao espírito decorativo.

Que fazem suas peças únicas na companhia do mobiliário da galeria? Divertem-se. Rompem a ordem do design polido, elegante, refinado e por vezes austero. Contestam seu rigoroso acabamento, que faz sua força e também seu limite. Ao estilo opõem o acidental. Iluminam o lado sombrio da madeira, acentuam o encanto do design brasileiro. Ao caráter potencialmente replicável, opõem a obra única e sem limite. As peças explicam-se mutuamente. Um sopro vital anima o espaço.

Exaltando com sutileza a relação entre terra e madeira, a Galeria Teo revela a fertilidade do encontro. A beleza instala-se como necessidade.

 

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Encontros Insólitos – Célia Cymbalista na Galeria Teo, São Paulo, 2026 | Foto Ramanaik Bueno

 

CÉLIA CYMBALISTA | MATÉRIA COMO LIGUAGEM

O trabalho de Célia Cymbalista desenvolve-se a partir de recorrências formais que emergem de maneira intuitiva, por vezes com longos intervalos entre uma aparição e outra. Há em sua produção uma espécie de memória interna da forma, um repertório silencioso que reaparece ao longo dos anos. Posteriormente, a artista reconhece nessas imagens afinidades estruturais com artefatos ancestrais, não como citações literais, mas como ressonâncias entre matéria, gesto e tempo.

A matéria ocupa posição central em sua pesquisa. Mais do que suporte, ela é linguagem. Tensões, marcas, acidentes e irregularidades não são corrigidos, mas incorporados à estrutura da obra. Seu trabalho nasce desse estado de escuta do comportamento do material, em que o processo se torna parte constitutiva da forma.

A investigação orienta-se frequentemente pelos limites físicos e estruturais da cerâmica e do ferro. Peças de grande escala, extremamente finas, implicam risco elevado durante a execução e a queima. Muitas delas existem no limiar do equilíbrio, apoiando-se em poucos pontos de contato. Um deslocamento mínimo pode levá-las à queda. Essa tensão permanente constitui elemento essencial de sua poética.

Há, nessas esculturas, um paradoxo recorrente, objetos de presença densa e materialidade intensa que ocupam o espaço de forma leve, quase suspensa. A física do equilíbrio e a química da transformação do barro em cerâmica atravessam sua produção. Diferentemente de quem esculpe pedra e termina com pedra, Cymbalista inicia com barro e finaliza com cerâmica, materiais radicalmente distintos.

Sob a curadoria de Lorette Coen, as obras em cerâmica instauram no espaço uma dimensão sensível e experimental, tensionam materiais e funções e ampliam a leitura do acervo histórico da Galeria Teo. Nesse encontro, o design se afirma como campo vivo, aberto a novas interpretações e ressonâncias contemporâneas.

Sem títulos, suas obras preservam a abertura de sentidos e privilegiam a relação direta entre objeto, espaço e espectador. Indiferentes ao espírito decorativo, não existem para completar o espaço, mas para ativá-lo.

 

SERVIÇO

ENCONTROS INSÓLITOS | GALERIA TEO
26 de março a 30 de junho de 2026
Abertura – 26 de março de 2026 | 19h
Rua João Moura, 1298
São Paulo, SP — 05412-003 — Brasil
+55 11 3063-1939
Horário de funcionamento
Segunda a sexta, das 9h às 18h
Sábado, das 10h às 14h

 

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