De acordo com Ruben Millon, da Graphisoft, há ainda caminhos para a ampliação da inteligência artificial nos fluxos técnicos de projeto, coordenação e execução
Segundo dados da FGV IBRE, o uso de Building Information Modeling (BIM) pelas empresas de construção no país mais que dobrou em seis anos, passando de 9,2% em 2018 para 20,6% em 2024. Mas é a integração do BIM com Inteligência Artificial (IA) e workflows BIM que deve, de fato, ditar o futuro do setor de arquitetura, engenharia e construção civil, graças à capacidade da tecnologia de alavancar a produtividade e antever cenários que impactem em tomadas de decisões.
O tema foi discutido no BIM Fórum Conference 2026, realizado neste mês de maio em São Paulo (SP), reunindo especialistas e executivos do setor para discutir os avanços que o setor já conquistou por meio da tecnologia, bem como as expectativas para os próximos anos. No painel “IA e construção digital — onde já estamos e para onde vamos”, Ruben Millon, arquiteto sênior da Konigsberger Vannucchi Arquitetos e representante da Graphisoft, referência global em soluções BIM, afirmou: “A IA vai impulsionar uma transformação que o BIM já começou. Estamos saindo de um modelo centrado apenas em representação para um modelo centrado em dados. Isso muda completamente a forma como os projetos serão concebidos, coordenados e operados”, disse.
O uso de dados como recurso para o desenvolvimento de projetos deve ser a principal mudança na indústria da construção, por meio do qual modelos BIM deixam de ser apenas uma documentação técnica, mas se tornam plataformas de informação em todo o ciclo de vida dos ativos. “A tendência é que não existam mais projetos concebidos desde o início sem uma estratégia orientada por dados. Empresas precisarão redesenhar seus modelos de valor, colocando IA e dados no centro das operações”, disse Millon.
E apesar da IA avançar no ambiente corporativo, ainda não há ampla adesão da tecnologia nos fluxos técnicos de projeto, coordenação e execução. “As grandes empresas já começam a aplicar IA em escala em diferentes processos internos. Mas no ambiente técnico ainda estamos em um estágio inicial. Já vemos aplicações concretas em extração automática de quantitativos, detecção de interferências e geração de documentação técnica com modelos de linguagem, mas ainda de forma bastante pontual”, explicou.
Normas e frameworks voltados à governança de dados e gestão da informação, como a ISO 19650, podem viabilizar a adoção escalável da IA na indústria. “A IA chega rápido. A maturidade de dados chega devagar. O desafio continua sendo estruturar informações confiáveis, padronizar processos e preparar as organizações para trabalhar de forma integrada. A diferença entre empresas que apenas fazem pilotos de IA e aquelas que conseguirão escalar a tecnologia está justamente na qualidade dos dados e na maturidade da gestão da informação”, disse.

Design generativo
Ruben Millon também que o cruzamento de dados viabilizado pela IA deve acelerar o uso de recursos como tomada de decisão preditiva e o design generativo colaborativo, tornando-as as principais frentes de criação de valor do BIM. “Quem tiver dados estruturados de projetos anteriores terá uma vantagem competitiva enorme. A IA permitirá antecipar riscos de prazo, custo e qualidade antes que eles se tornem problemas concretos”, afirmou.
Integração com agentes
De acordo com Millon, a indústria BIM está está cada vez mais receptiva a softwares que conversam diretamente com agentes de IA — sistemas que não apenas respondem a perguntas e criam mensagens generativas, mas criam planos estratégicos, tomam decisões e utilizam ferramentas por conta própria com mínima intervenção humana. “Isso deve transformar profundamente a maneira como informações são produzidas, processadas e utilizadas nos projetos”, afirmou.
Uma das principais tendências de médio e longo prazo será a transformação dos modelos BIM em plataformas inteligentes de operação de ativos, integrando sensores, IoT (internet das coisas) e IA ao longo de toda a vida útil dos empreendimentos. “O BIM precisa deixar de ser apenas um entregável ao final do projeto e passar a funcionar como um sistema vivo de operação do ativo. É aí que está o maior potencial econômico do setor”, pontuou.
Ruben Millon defende, contudo, que o avanço da IA não deve substituir arquitetos e engenheiros, mas sim ampliar a capacidade analítica e criativa dos profissionais, liberando mais tempo para atividades que envolvam julgamento técnico, criatividade, estratégia e relacionamento.
Por Victor Hugo Felix.
