Na construção de uma nova sala de espetáculos no Teatro Cultura Artística, José Augusto Nepomuceno desenha acústica como se fosse instrumento musical
História, arte, engenharia… Diversos elementos compõem a trajetória do Teatro Cultura Artística, espaço fundado em 1950 e que, em 2008, sofreu um incêndio de grandes proporções e perdeu boa parte da estrutura original. Criado como sede do Cultura Artística, iniciativa que desde 1912 promove variadas manifestações culturais em São Paulo, o Teatro precisava de uma revitalização que estivesse à altura do legado deixado pelos artistas que passaram pelo edifício.
Assim, José Augusto Nepomuceno, diretor do escritório Acústica & Sônica, recebeu a missão de fazer com que a Sala Principal, um dos locais mais danificados pelo incêndio, pudesse ser reconstruído com o melhor desempenho acústico possível. O que norteou o projeto foi enxergar o espaço como um instrumento musical. “Sou um luthier da arquitetura e uma sala de concertos é o ‘enésimo’ instrumento da orquestra. Nosso trabalho é desenvolver, realçar, dar vida à sonoridade de vozes ou instrumentos musicais”, diz.
Isso conduziu algumas decisões importantes, como forma geométrica do espaço. Optou-se por um formato retangular, para garantir melhor distribuição do som. Com a plateia em um pavimento maior, duas plateias laterais ligeiramente elevadas, e um balcão mezanino que circunda a sala, o local tem volume de aproximadamente 6800 m3 para acomodar 750 lugares.
Linhas de difusores convexos foram instaladas acima do palco para espalhamento sonoro, e o palco foi circundado por ripas de madeira maciça com abertura entre elas, conectadas por portas com o backstage. A depender da combinação de aberturas destas portas, as características acústicas no palco se alteram. Para que o som externo não penetrasse na sala, foram utilizadas soluções como isolamento de vibrações, diversos tipos de vedação incluindo juntas soldadas em aço, e acessos à Sala feitos por antecâmaras.


Arte a favor da acústica
Outro destaque do projeto foi a colaboração com a artista Sandra Cinto, que criou relevos nos revestimentos das paredes como forma de otimizar o desempenho acústico. “Precisávamos de topografias para espalhar o som em múltiplas direções, o que não ocorreria em uma parede lisa. Estas topografias estão presentes em salas desde antes do final do século XIX na forma de elementos escultóricos e que tinham função decorativa. A equipe de projeto, que incluiu nossos colegas Paul Scarbrough e Chris Blair, tem desenvolvido há anos a ideia de elementos difusores com desenho mais livre delineando o caráter do local”, explica Nepomuceno.
A Sandra Cinto já estava colaborando na revitalização do Teatro Cultura Artística, com tapeçarias e outras atividades. Quando a equipe de acústica iniciou os trabalhos das topografias, a Sociedade de Cultura Artística recomendou que a artista desenvolvesse os relevos. “Nós trabalhamos diretamente com ela ajustando dimensões, espaços entre ‘curvas, inclinações etc. Neste processo quem colaborou mais proximamente com Sandra foram Júlio Gaspar e Chris Blair”, explica. A cor amarelada dialoga com a história do antigo teatro, uma vez que era a original do projeto de 1950, assinado por Rino Levi.


Técnica e inspiração
O projeto de revitalização do Teatro Cultura Artística foi desenvolvido por Pedro e Paulo Bruna, enquanto o restauro foi encabeçado pelo escritório MLD RAI. O escritório Acústica & Sônica, de José Augusto Nepomuceno, atuou também na consultoria da acústica de outros espaços, como as Salas de Estudo e o Auditório, que já teria uma volumetria e uma inclinação de plateia suficientes para garantir bom desempenho acústico.
Para José Augustos Nepomuceno, espaço dedicados às artes performáticas impõem o maior desafio na relação entre acústica e arquitetura. “A experiência da apresentação não amplificada depende de como o espaço soa. E aí aparecem os desafios: as decisões que navegam entre a arte e a ciência. Muito comumente no Brasil, a acústica de teatros é tratada como uma matéria puramente técnica o que é um gigantesco equívoco”, finaliza.



Por Victor Hugo Felix
Fotos: Nelson Kon
