Ao preservar a matéria e os signos de edifício histórico enquanto redesenha seus espaços para a vida contemporânea, projeto transforma a reforma em exercício de continuidade
No icônico Edifício Genève, em Brasília, a reforma do apartamento duplex assinada pela Hersen Mendes Arquitetura estabelece um diálogo preciso entre memória arquitetônica, design autoral e as formas contemporâneas de habitar. Projetado pelo arquiteto Cláudio Meirelles e inaugurado em 1975, o edifício apresentava uma planta compartimentada e limitações de infraestrutura que pediam uma reconfiguração ampla. Ao mesmo tempo, sua história preservava elementos de grande valor, entre eles o painel exclusivo de Athos Bulcão, presente em cada unidade.
Terceiro projeto realizado pelo escritório para o mesmo casal, o apartamento permitiu aprofundar uma linguagem já construída em conjunto. A reforma partiu do desejo dos moradores por uma casa vibrante, marcada por cores e estampas (e pela recusa ao branco!), mas também por espaços que favorecessem o convívio, a leitura e a gastronomia. Da concepção espacial à gestão da obra e ao desenho de mobiliário, a Hersen Mendes Arquitetura conduziu um processo em que cada escolha articula identidade, funcionalidade e referências à cidade.
Na área social, a planta foi invertida para criar uma chegada mais generosa. Sofás desenhados pelo escritório, a Poltrona Mole, de Sérgio Rodrigues, e uma escultura de Ruy Ohtake se relacionam ao painel curvo de Athos Bulcão, que, originalmente destinado a ocultar um pilar, tornou-se também ponto de partida para o resgate da biblioteca prevista no projeto original. Descaracterizado em muitos apartamentos do edifício, o ambiente foi recuperado como uma segunda sala dedicada à leitura, um dos hobbies do casal.





A antiga cozinha, antes restrita à área de serviço, foi incorporada ao núcleo social e ganhou protagonismo como um volume cromático. Tons rosados, terrosos e alaranjados convivem com papéis de parede ingleses estampados, enquanto a bancada semicircular e o uso do Dekton Umber no piso e na superfície introduzem uma presença monolítica em contraste com a profusão de padrões.
A escada existente também foi reinterpretada: o carpete deu lugar ao concreto original, valorizado por um guarda-corpo em tom berinjela e iluminação integrada, que acompanha a verticalidade do duplex e o pé-direito duplo da entrada.




No pavimento superior, a distribuição foi novamente revista para responder à dinâmica familiar. A suíte do casal foi ampliada e reposicionada, com closet e dois banheiros independentes, enquanto uma suíte para as filhas, quarto de hóspedes e escritório completam o andar. Elementos originais, como um painel curvo de lambris, foram restaurados e passaram a conviver com intervenções contemporâneas, entre elas novas portas em tons azulados.




A relação com a arquitetura do Genève se prolonga nos detalhes concebidos especialmente para o apartamento. Um azulejo desenvolvido pela Hersen Mendes Arquitetura e produzido pela Quina Azulejaria traduz graficamente os brises amarelos da fachada e os semicírculos do pilotis.
Na sala, o tapete desenhado pelo escritório evoca o Lago Paranoá e incorpora referências aos diferentes territórios de Brasília que atravessam a trajetória da família. Até os mármores foram escolhidos em continuidade com aqueles presentes no painel de Athos Bulcão e na fachada original.




Imagens: Joana França
