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Nós nascemos para continuar

O trabalho de Paulo Mendes da Rocha foi motivado por uma visão ao mesmo tempo realista, idealizada e lúdica da arquitetura

 

Em julho de 2020, o arquiteto e urbanista Paulo Mendes da Rocha concedeu uma entrevista para a série “Conversas na Crise – Depois do Futuro”, organizado pelo Instituto de Estudos Avançados (IdEA) da Unicamp em parceria com o portal UOL. O objetivo era que ele opinasse sobre como as metrópoles lidariam com a pandemia de COVID-19, apresentando os possíveis desafios das cidades após a crise sanitária. Assim, Paulo disse a frase que resume como ele enxerga a arquitetura: “Toda novidade é estímulo para o avanço da nossa existência no planeta, que não é nada configurada, é um projeto em andamento”.

O arquiteto é filho do engenheiro de portos e vias navegáveis Paulo Menezes Mendes da Rocha. No documentário “Tudo é projeto”, codirigido por sua filha Joana Mendes da Rocha, Paulo menciona que observar o trabalho do pai, sempre envolvido em grandes obras, o inspirou a entrar também nesse universo, por meio da arquitetura. E ao fazer isso, levou consigo as águas e a natureza como grande referência, afirmando por diversas vezes que “a primeira e primordial arquitetura é a geografia”.

A trajetória de Paulo Mendes da Rocha foi marcada por grandes prêmios e condecorações, incluindo a Medalha de Ouro Real do Royal Institute of British Architects (RIBA), em 2017. Na ocasião, o arquiteto John McAslans, um dos responsáveis pela indicação de Paulo ao prêmio, resumiu como o trabalho do brasileiro é visto ao redor do mundo: “O gênio particular de Paulo Mendes da Rocha pode ter se originado em meados da década de 1950, mas ele, sem dúvida, permanece um arquiteto – e especificamente não um starchitect – para os nossos tempos. Esta é certamente a marca essencial de sua grandeza”.

Mas afinal, o que tornava Paulo Mendes da Rocha um arquiteto?

 

Paulo Mendes da Rocha antiga Mesbla atual Sesc de Maio Foto Ana Ottoni

 

 

O homem é arquiteto

Em diversas entrevistas ao longo da vida, Paulo expressou sua crença de que que a arquitetura é uma atividade é essencial para o ser humano, uma vez que sempre será necessário pensar em soluções para habitar os espaços, independentemente de haver ou não formação específica para esse trabalho.

 

“Essa é a questão da arquitetura: transformar a natureza em habitável, porque, por si, ela não é. A natureza é um desastre: inundações, terremotos, vulcões…” – Paulo à revista América, em 2020.

 

Assim, a percepção de Paulo Mendes da Rocha sobre a arquitetura e o urbanismo abarcam a preocupação que ele tinha em propiciar melhores vivências e convivências para os usuários, apostando na integração dos ambientes, confrontando os limites entre o público e o privado, permitindo que as pessoas possam de fato se apropriar das obras. É como ele afirmou no documentário PMR 29’: “Nós estamos aqui para ocupar os espaços. De modo transgressor, se possível”.

 

Humanista

Nascido em 25 de outubro de 1928, em Vitória (ES), Paulo Mendes da Rocha formou-se arquiteto e urbanista em 1954, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. E desde o início de sua carreira, obteve grande destaque, vencendo em 1958 o concurso para projetar o Ginásio do Clube Atlético Paulistano. Com esse trabalho, a visão humanista da arquitetura já estava bem desenhada. “Imaginei que as construções fechadas que se usam para os ginásios cobertos não cabiam ali. Tinha que ser algo festivo, que pudesse conviver com a alegria da rua Augusta. […] Daí o surgimento daquela frente inesperada, que parece um teatro”, disse para o portal ArchDaily.

Com o projeto do Paulistano, Paulo Mendes da Rocha recebeu o Grande Prêmio Presidência da República na 6ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1961. Nesse período, passou a integrar o grupo chamado “escola paulista” na arquitetura, liderado por Vilanova Artigas. Os arquitetos desse movimento apostavam no concreto armado aparente, valorizavam a estrutura e davam ênfase às técnicas construtivas. Para a escola paulista, a arquitetura trazia também um viés político, tanto na elaboração do conceito de cada projeto como na busca por melhores condições para os trabalhadores das obras.

O viés humanista e político de Paulo Mendes da Rocha era expresso tanto em seus trabalhos de arquiteto quanto de professor. Ele começou a lecionar em 1961 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo (FAU/USP). Entretanto, com a ascensão da ditadura militar, em 1969 ele foi cassado de suas funções em decorrência do Ato Institucional nº 5 (AI-5). Na década de 1970, ele manteve seus posicionamentos como representante da classe presidindo o departamento paulista do Instituto dos Arquitetos do Brasil. Após anistia em 1980, Paulo voltou a lecionar, dando continuidade ao seu trabalho de formar arquitetos com foco no humanismo.

 

“É impossível ensinar arquitetura, mas é possível educar um arquiteto. Uma escola de arquitetura não ensina coisa alguma, mas faz cogitar. Recebe inconscientes e ignorantes, devolvendo para a sociedade ignorantes, entretanto agora conscientes” – Paulo à revista América, em 2020.

 

Ao longo dos anos 1980 e 1990, Paulo seguiu criando projetos icônicos, como o Museu Brasileiro da Escultura (MuBE), o pórtico da Praça do Patriarca, em São Paulo, e a reforma da Pinacoteca do Estado de São Paulo. No campo do urbanismo, projetou a Cidade do Tietê e a reurbanização das baías de Vitória (ES) e Montevidéu (Uruguai). Em cada trabalho se reafirmava a busca por uma sociedade mais integrada, que valorizasse a natureza e oferecesse uma verdadeira qualidade de vida para os usuários, não apenas no âmbito das funcionalidades, mas também nos afetos e na imaginação.

Segundo Guilherme Wisnik, arquiteto e ensaísta que foi curador da exposição Ocupação Paulo Mendes da Rocha, no Itaú Cultural, há uma forma diferente de humanismo nos projetos do capixaba. O concreto aparente, apesar de trazer fixidez nas estruturas, ainda cria espaços muito fluidos, com rampas, meio níveis, integrações que permitem poder ativo do usuário em relação à arquitetura.

 

Não é como Lina Bo Bardi, com desenhos com pessoas usando os espaços. Ele pensava nos usos imaginando a imprevisibilidade. Isso era a tentativa de deixar os espaços mais indeterminados, para que o uso pudesse mudá-los” – Guilherme Wisnik

 

Exemplo é a casa que Paulo Mendes da Rocha projetou para a própria família em 1964. Feita com construção modular, a obra privilegia a integração dos ambientes, com o tamanho dos quartos e espaços mais privados reduzidos de modo a ampliar as áreas de convívio. E nos pequenos detalhes Paulo propiciou novas formas de uso. Nos banheiros, por exemplo, os canos que levam água para os misturadores formam uma espécie de serpentina para aguçar a criatividade dos filhos, que poderiam criar os usos que quisessem para aquele utensílio. “Não que tivesse funcionalidade, mas que fosse pretexto pra [dizer] ‘Você vai ver o que eu vou fazer’”, afirmou.

 

 

A cidade contemporânea

Paulo Mendes da Rocha expressou por diversas vezes que o objeto central da arquitetura na atualidade é a cidade contemporânea. Segundo ele, até mesmo a casa projetada para si mesmo contraria o que ele considera ideal para cidades com mais de 100 mil habitantes. Os edifícios, na sua visão, são muito mais interessantes que um terreno separado para a construção de uma única residência. “A casa contemporânea tem que estar num prédio […] para poder ir para escola a pé, pra ter acesso ao metro…”, afirmou no documentário “Tudo é projeto”. Em “Tudo é projeto”, ele citou o edifício Copan como exemplo, onde há residências nos andares superiores, mas no nível da cidade é bar, comércio, etc.

O Sesc 24 de Maio, em São Paulo, uma de suas últimas obras, evidencia percepção de ter as cidades como espaços democráticos de convívio. Construído no que era o antigo prédio da Mesbla, o centro cultural traz no topo do edifício uma piscina pública, com amplas vistas para a cidade de São Paulo. Cada ambiente no edifício é pensado de forma a integrar os espaços, trazendo ainda a cidade para dentro. Mesmo os vestiários, que em geral são meramente funcionais, tem vistas panorâmicas para o entorno, permitindo que os usuários se mantenham conectados a São Paulo.

Um segundo prédio foi anexado à obra e ali foram instaladas as maquinarias e áreas de serviços, de acesso exclusivo para funcionários. Foi uma solução encontrada por Paulo Mendes da Rocha para dar novos usos a velhas construções. “Transformar a antiga Mesbla em Sesc é uma política de ocupação, novas ocupações. Numa cidade como São Paulo, é difícil imaginar demolição. Muita transformação ocorrerá por dentro”, defendeu.

Idealista, acreditava que as pessoas não deviam ter medo dos centros das cidades. “O medo é ferramenta do fascismo”, dizia. Ao contrário, defendia que as pessoas vivessem em liberdade, convivendo com as diferenças, tendo a arquitetura como promotora desse estilo de vida, evitando condomínios fechados e outras habitações excludentes. “Nós temos que ter uma sociedade que se entenda, senão não é sociedade”.

 

“Toda novidade é estímulo para o avanço da nossa existência no planeta, que não é nada configurada, é um projeto em andamento” – Paulo Mendes da Rocha

 

Paulo Mendes da Rocha recebeu diversos prêmios ao longo da carreira, como os célebres Pritzker (2006), o Leão de Ouro na Bienal de Veneza (2016) e a Medalha de Ouro da União Internacional dos Arquitetos (2021). Foi um arquiteto de renome internacional, mas que teve mais obras em território brasileiro. Faleceu em 23 de maio de 2021 aos 92 anos, deixando um legado incontestável.

O arquiteto acreditava na importância de perpetuar o conhecimento, passando o saber de geração em geração para que a humanidade pudesse sempre encontrar as soluções que precisa para viver. E é assim que Paulo Mendes da Rocha será lembrado. Recordemos o que ele disse para a filha no documentário “Tudo é Projeto”: “Todos nós sabemos que vamos morrer, mas também sabemos que não nascemos para morrer. Nascemos para continuar”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Victor Hugo Félix

Imagens: Ana Ottoni, Acervo Paulo Mendes da Rocha e Divulgação

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