Material retirado da Amazônia ganha nova aplicação na construção civil, oferecendo maior resistência, durabilidade e eficiência às edificações
Com o objetivo de ampliar o aproveitamento de resíduos para a criação de materiais resistentes para o setor da construção civil, a Unidade Embrapii Senai Cimatec, em parceria com a empresa amapaense Mazodan Laboratório & Produtos Cimentícios, desenvolveu uma solução que torna rejeitos minerais do Rio Amazonas em argamassa sustentável. Os resíduos são transformados em sedimentos ultrafinos que geram um material com maior resistência e durabilidade. A inovação amplia o aproveitamento de recursos amazônicos e abre caminho para materiais de construção alinhados à descarbonização e à economia circular.
Com a nova tecnologia é possível alcançar uma redução de até 90% nas emissões de CO₂ e gerar economia de 50% na produção de argamassa para o setor da construção civil. Segundo a Embrapii, do ponto de vista social, a tecnologia estimula a bioeconomia regional, fortalece a cadeia produtiva de inovação verde no Norte do país, gera oportunidades econômicas e possibilita a edificação de estruturas mais sustentáveis e preparadas para enfrentar os desafios climáticos das próximas décadas.
No site da Mazodan, é possível fazer uma simulação de custos, de acordo com a região do país, com material e mão de obra, com base em dados oficiais do Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil (Sinapi). Na região Centro-Oeste, por exemplo, o custo com material convencional e mão de obra para revestir 200 m² chega a R$ 15.417,20. Para revestir a mesma área com a argamassa Mazodan, o valor cai para R$ 7.309,60, 52% mais barato.

Melhores práticas para o setor
A nova argamassa surge como uma alternativa ecológica e viável aos cimentos convencionais. Calcula-se que há atualmente 1,2 bilhão de toneladas de sedimentos assoreando os rios da Amazônia em processo cíclico agravado pelo aquecimento global. Os dados são da organização Aliança Águas Amazônicas (ÁGUAS AMAZÔNICAS). Ao aproveitar partículas minerais antes ignoradas economicamente, a tecnologia reduz substancialmente a pegada de carbono das edificações, além de dispensar o uso de insumos finitos e assegurar construções mais resistentes, duráveis e termicamente eficientes.
A iniciativa foi motivada pela necessidade de enfrentar os gargalos ambientais e logísticos da construção civil tradicional, setor que consome grande quantidade de recursos naturais não renováveis, além de ser potencial emissor de gases de efeito estufa. “Tínhamos o desafio de transformar um passivo ambiental, os sedimentos e rejeitos minerais subaproveitados do Rio Amazonas, em um recurso tecnológico de alto valor agregado, unindo a preservação dos ecossistemas amazônicos à eficiência da indústria construtiva”, explica Michael Carvalho, CEO e fundador da Mazodan.

A solução foi criada para aplicação no assentamento de blocos e tijolos em paredes. “Essa argamassa é pronta para uso, podendo ser comercializada em bisnagas, proporcionando um canteiro de obras mais enxuto, com menos desperdícios e menor geração de resíduos”, informa Nilson Amorim, pesquisador da Unidade Embrapii e líder técnico do projeto. O produto desenvolvido é quatro vezes mais resistente que a argamassa comum e mil quilos desta argamassa polímérica substituem 20 toneladas de argamassa cimentícia, quantidade suficiente para a construção de três casas populares. Outra vantagem é que não há a necessidade de mistura, dispensando o uso de betoneira, água, cimento ou areia.
A parceria entre a Mazodan e a Embrapii deve render novas iniciativas, como uma massa nivelante, que substitui o reboco tradicional, e um cimento aprimorado geopolímero, obtido a partir de rejeitos de barragens de mineração. O primeiro deve entrar no mercado ainda este ano, enquanto o segundo está em fase de pesquisa.
Por Victor Hugo Felix
Foto capa: Nao Iizuka from Tokyo, Japan, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons
Fotos: Divulgação
