Com foco na brasilidade, projetos refletem a essência de cada região por meio do uso de madeira e tons terrosos, bem como pela seleção de mobiliários e artesanatos decorativos
A primeira Bienal de Arquitetura Brasileira, exposta entre os dias 25 de março e 30 de abril, no Parque Ibirapuera, evidencia a essência dos criadores de cada região do país. Selecionados por concurso, os escritórios de arquitetura e interiores criaram ambientes que refletem as principais tendências de cada localidade brasileira, com materiais e escolhas estéticas que atualizam antigas tradições.
Organizado no Pavilhão das Culturas Brasileiras (PACUBRA), o Pavilhão Brasil organizou os ambientes selecionados a partir dos biomas nacionais, como Cerrado, Mata Atlântica, Amazônia, etc. Cada espaço, de 100m², é assinado por um escritório diferente, e a mostra ainda conta com espaços exclusivos dos patrocinadores, que vão desde Breton a By Kami, Westwing, e muitos outros.
Em toda a mostra, alguns elementos ganharam destaque, como o uso de fibras naturais, madeira, artesanatos, além de espaços que têm o mobiliário como protagonista e o uso recorrente de cobogós. Tais elementos trazem uma interação entre os interiores e a paisagem brasileira, tão rica em recursos naturais que podem gerar uma arquitetura mais sustentável e conectada com suas origens.

Cobogó
Tradicional da arquitetura brasileira, o cobogó foi um dos elementos mais recorrentes na Bienal de Arquitetura Brasileira, recebendo inclusive um design próprio para o evento. Utilizado desde fachadas até a divisão de ambientes internos, o item foi explorado em toda sua versatilidade.
A Lepri desenvolveu um cobogó exclusivo para Bienal de Arquitetura Brasileira, com um design que remete à sigla da mostra. Feita de argila, como é tradicionalmente feito pela marca, as peças representam a proposta do evento de ressaltar a brasilidade na arquitetura, e foram utilizadas na fachada.

Fabiano Lins, no Projeto DO SERTÃO, coloca as ripas de madeira para e os cobogós como elementos vazados que integram os espaços, sejam eles internos ou externos. Representando a Paraíba, o espaço é repleto de componentes que remetem às tradições sertanejas.

No projeto que representa o Amazonas, o cobogó foi utilizado para dividir ambientes íntimos. Fernanda Rubatino, no espaço Casa Terra, traz o elemento em combinações com outras peças de origem natural como terra e madeira, para evocar a sustentabilidade e homenagear Sebastião Salgado.

Madeira
Um dos materiais utilizados de forma mais diversificada foi a madeira, presente em painéis, forros e elementos cenográficos. Além de trazerem calor e remeterem a espaços de afeto, a madeira é utilizada tanto na sua forma bruta, com formas orgânicas, ou trabalhada em revestimentos.
Na Casa Empate, representando o Acre, a arquiteta Marlúcia Candida especificou a madeira de diferentes formas, seja no revestimento das paredes, na aplicação de bambu e no painel de cabeceira da cama.

Uma estrutura de madeira de demolição engenheirada, na qual uma viga apoia a outra, foi instalada na Casa Superlimão, do escritório Superlimão. O material também está presente no piso para reforçar o aspecto sustentável do projeto.

A Casa Corcovado, assinada por Paula Martins para representar o Rio de Janeiro, levou a madeira também para a cozinha, tanto na marcenaria de MDF dos armários quanto no conjunto de mesa e cadeiras.

Materiais vegetais
Palha, sisal e outros materiais de origem vegetal tiveram diferentes aplicações, desde painéis e forros a elementos cenográficos. Além de trazerem texturas e aguçar os sentidos, as fibras naturais remetem ao que a natureza oferece em cada região do país.
A Casa Pedro Neves: Raiz e Trânsito, assinado por Larissa Catossi e Guilherme Abreu, representa o Maranhão e traz diferentes aplicações das fibras naturais com resultados distintos: no painel, da sala de estar, convida ao toque; no tapete, traz aconchego.

Fibras naturais também assumem protagonismo na Casa Dí Chico, no escritório Black Arquitetos. A luminária sobre conjunto de mesa e cadeiras de madeira, assim como em outros pendentes espalhados pelo projeto, remetem à paisagem da Caatinga.

O Pará foi representado pelo Projeto Caminho dos Rios, do Studio Tuca, onde elementos decorativos com fibras naturais harmonizam com os diferentes usos de madeira e com a textura nos revestimentos.

O projeto Tão Paulista Quanto a Avenida, do escritório Os Gêmeos Arquitetura e Engenharia, usou grandes ripas de madeira natural para evidenciar um aspecto do Estado de São Paulo que vai além do estereótipo industrial e urbano que costuma ser associado à região.

Tons terrosos
Remetendo à terra e aos recursos que a natureza oferece para a construção das casas brasileiras, muitos projetos apostaram em tons de marrom e bege. A ideia é representar o barro, a argila, a taipa de pilão, e assim, honrar as tradições que originaram a nossa arquitetura.
A Casa Trussardi exprime a pesquisa do Estúdio Vida de Vila sobre o uso de técnicas tradicionais com terra na arquitetura. O barro no reboco, feito com apoio da Taipal, expressa a conexão da materialidade no território.

A Casa do Mastro, que representa a Bahia, marca uma segunda parceria entre o Estúdio Vida de Vila e a Taipal. Os revestimentos terrosos das paredes dialogam com os diversos outros materiais naturais do ambiente.

No Rio Grande do Sul, o marrom chega num tom mais frio e sóbrio. O Projeto Querência Amada, do Studio Carbono + Matte Arquitetura, traz outra abordagem para essa coloração tão popular na arquitetura brasileira e, acompanhado pela lareira, expressa o clima da região.

Arte e artesanato
Por meio de trabalhos manuais e expressões artísticas diversas, o design de interiores ganha mais autenticidade e conexão com as variadas regiões do Brasil. Materiais como tecidos e cerâmica recebem protagonismo.
Projetado pela Cité Arquitetura, de Celso Rayol, o restaurante Biomas Breton reverencia a Caatinga e a Amazônia. Dois salões são separados por cor, adornados com arte nas paredes e tecidos no forro. As cadeiras Breton recebem bordados de peixes do Rio São Francisco.

Representando Goiás, a Casa de Amélia foi inspirada na avó de Mara Sandra, arquiteta que, ao lado de Luyara Godoy, comanda o escritório Bendito Traço Arquitetura. No ambiente, elementos tradicionais da cultura goiana conferem o aspecto acolhedor que se espera para receber os entes queridos.

A Casa que Dança, do escritório Boscardin Corsi, traz a arquitetura paranaense dos anos 1950 para os dias atuais. E elementos decorativos, que podem ser adaptados por cada morador, essas mutações que a arquitetura pode sofrer. A obra feita de tecido, que cai na parede, expressa esse movimento com leveza.

Areia é protagonista no Projeto Casa de Veraneio, do escritório Rodra Arquitetura. O espaço homenageia o Rio Grande de Norte com itens decorativos, mobiliário de madeira e um belo painel da artista potiguar Ariel Guerra que reproduz diversos símbolos culturais e naturais do estado.

Inspirado na influência da tribo macuxi na cultura de Roraima, a Casa-território, de Rayresson Rocha, Estúdio Modullus e Jacqueliny Ramires, traz forte inspiração indígenas. Além de contar com obras que remetem às tradições dos povos nativos, ainda conta com panelas feitas por indígenas yanomamis.

Louças de barro feitas em Itabaianinha, no Sergipe, são ressignificadas como obras de arte no Relicário de Voinha, do Estúdio Mangaba. O espaço ainda conta com amplo uso de materiais têxteis e quadros de artistas sergipanos, unindo a tradição artesanal com a visão artística contemporânea.

Na Casa de Arlê, do arquiteto Marcus Garcia, a representação do Tocantins se dá principalmente pelo trabalho dos artistas e artesãos locais, incluindo peças decorativas de origem indígena e quilombola. Obras de arte e peças de design também são assinadas por tocantinenses, para contar a história do estado.

Inspirada nas águas vivas, a instalação “A Água é Viva”, da By Kamy, traz peças feitas de bordados, assinadas por Elisa Lobo. Os itens são produzidos linhas encontradas em rios e oceanos, gerando consciência socioambiental. Parte do projeto é idealizado por Francesca Alzati

Superfícies
A combinação de diferentes materiais geram experiências únicas no trato com superfícies. Os contrastes entre tecnologia e natureza, bem como a frieza das pedras com o calor da madeira, permitem sensações que revelam as especificidades de cada região do país. As diferentes possibilidades com as linhas curvas também exploram o que as superfícies podem representar na arquitetura, algo que brasileiros como Oscar Niemeyer executaram com pioneirismo.
Fogão à lenha de pedra-sabão, armários de madeira, pisos de cerâmica… Cada elemento compõe um cenário que remete ao aconchego tradicional daquele que é o principal espaço numa casa mineira: a cozinha. A Casa Adélia Prado, projeto de Marina Reis, une singeleza e sofisticação.

Jeferson Branco explorou as possibilidades na especificação dos materiais no Projeto Pavilhão de Santa Catarina. O forro de madeira, o painel de cerâmica e a coluna de concreto ajudam a compor um visual mais urbano mas integrado com a regionalidade.

O modernismo brasileiro do Distrito Federal é reinterpretado pelo escritório Debaixo do Bloco, com o projeto Moderno no Viver. O corredor curvo que inicia o percurso se abre para um espaço amplo, inspirado na arquitetura de Brasília. O uso do concreto bruto reflete o método pela qual a capital foi construída.

Vidro e materiais industriais
Versátil, o vidro foi aplicado nos ambientes de diferentes formas, incluindo mobiliário e detalhes construtivos. Combinado com madeira e materiais de origem natural, os projetos ganharam dinamismo ao permitir que o efeito translúcido promova outros tipos de relação entre espaços e objetos.
Na Casa Ñanjderaja, da arquiteta Deborah Nazareth, o tampo de vidro da mesa da centro não é apenas um detalhe estético, mas um meio de revelar a beleza dos apoios de pedra arredondadas. Presente também nas grandes janelas por onde entra a luz natural, o vidro se torna o elo entre natureza e modernidade.

Inspirado em Carolina Maria de Jesus, o arquiteto Gabriel Rosa usou materiais diversos que inspiram a criatividade na Casa da Escritora. Em contraste com os revestimentos de madeira, o tampo de vidro da mesa e as peças de inox trazem uma nova vibração para o espaço, remetendo à estimulante vida na cidade de São Paulo.

Mobiliário
Sofás, mesas de centro, poltronas, estantes… O design brasileiro de móveis é bastante rico e tem sido projetado cada vez mais em linhas curvas, não apenas para trazer conforto mas para remeter à natureza e às paisagens do Brasil. Na mostra, o mobiliário foi apresentado de forma diversificada e criativa.
O Pavilhão do Espírito Santo, assinado por Letícia Finamore, tem como princípio reduzir excessos e valorizar a permanência, o que se reflete nas escolhas do mobiliário. O design com linhas curvas trazem aconchego para que se possa desacelerar o ritmo no ambiente e sentir as sensações do ambiente com calma.

Na Casa Pernambuco, de Thayná Padilha Arquitetura, o sofá curvilíneo conversa com o paisagismo, repleto de plantas que remetem ao estado nordestino. O paisagismo é assinado por Cris Castro. Em contraste, a estante com linhas retas traz dinamismo para o visual.

A exposição de mobiliário da Westwing é feita de modo a ressaltar a identidade visual da marca. As peças escolhidas dialogam com o turquesa da estrutura que as sustenta, e ainda são expostas como obras de arte, para serem apreciadas. O espaço é assinado por Marcelo Rosembaum.

